A vida tem a cor que você pinta. (Mário Bonatti)

domingo, 27 de junho de 2010

Um poema de Machado de Assis

Os dois horizontes

A M. Ferreira Guimarães


Dois horizontes fecham a nossa vida:

Um horizonte, - a saudade

Do que não há de voltar;

Outro horizonte, - a esperança

Dos tempos que hão de chegar:

No presente, - sempre escuro, -

Vive a alma ambiciosa

Na ilusão voluptuosa

Do passado e do futuro.



Os doces brincos da infância

Sob as asas maternais,

O vôo das andorinhas,

A onda viva e os rosais;

O gozo do amor, sonhado

Num olhar profundo e ardente,

Tal é na hora presente

O horizonte do passado.



Ou ambição da grandeza

Que no espírito calou,

Desejo de amor sincero

Que o coração não gozou;

Ou um viver calmo e puro

À alma convalescente,

Tal é na hora presente

O horizonte do futuro.



No breve correr dos dias

Sob o azul do céu, - tais são

Limites no mar da vida:

Saudade ou aspiração;

Ao nosso espírito ardente,

Na avidez do bem sonhado,

Nunca o presente é passado,

Nunca o futuro é presente.



Que cismas, homem? Perdido

No mar das recordações,

Escuto um eco sentido

Das passadas ilusões.

Que buscas, homem? - Procuro,

Através da imensidade.

Ler a doce realidade

Das ilusões do futuro.



Dois horizontes fecham nossa vida.

(Machado de Assis)


Boa semana a todos!

=)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Da felicidade.

"Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!"
Mário Quintana

Quanta delicadeza e sabedoria!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Gentileza gera gentileza.

Olá!!!
Reservo um espaço no Escapismos para oferecer um mimo a um dos caras mais queridos que já conheci na vida. O tempo que nos conhecemos é relativamente curto, mas suficiente para notar o grande ser que está por detrás daqueles olhos azuis e daqueles cachinhos castanhos (desordenados). rs... Aqui, ficam dois vídeos. Representantes das cantorias que alegraram as nossas manhãs lá na escola. rsrs...
Sucesso, Daniel.

Com carinho!







P.s.: Claro que os vídeos são, também, um mimo a você, caro leitor.

domingo, 23 de maio de 2010

São Bernardo.

Olá!!! Um pouco de literatura para hoje...

Bem, segundo Italo Calvino(1), “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo...” e nunca “Estou lendo...”. E, segundo o mesmo autor, “São clássicos os livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”.

Sendo assim, ao reler o São Bernardo(2), de Graciliano Ramos, um clássico - não só para mim - selecionei este trecho. Texto, no mínimo, arrepiante. E exemplo da grandiosidade dessa obra:

"Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste. E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas - e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.

Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. (...)

O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho:

- Madalena!

A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos.

Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.

- Madalena...

A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente algum dinheiro a mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranqüila. Mas estou assim. (...)

A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre a que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos. (...)

Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.

Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra.”

Boa semana!

Au revoir!

1. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia de bolso, 2009.

2.RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Desvario.

Ohhh My God!
Merci pour la musique!
“Gracias a la vida que me ha dado tanto.”

Bola da vez: David Bowie. :-O

We can be Heroes!

¡Hasta luego!




quinta-feira, 6 de maio de 2010

Clarice Lispector.

Trecho muito bonito e bastante revelador. Espero que gostem. =)

“Passava as manhãs sentada junto à mesa olhando os dedos, as unhas lisas e rosadas. Será que todo o mundo sabe o que eu sei? ocorria-lhe profundamente. Procurava distrair-se desenhando as linhas retas sem auxílio de régua – mas onde estava o encanto do trabalho? sem poder precisar melhor parecia-lhe que falhava a todo o instante. Às vezes falava alto algumas palavras e enquanto se ouvia parecia-lhe numa estranheza inquieta e deliciosa que ela não era ela mesma e surpreendia-se num susto que era também mentira. E depois noutra estranheza fraca e embriagada, ela era ela mesma. Dizia numa pequena voz aborrecida, balançando a cabeça; pois não estou contente, não estou nada contente. Ou entrava a viver numa exaltação íntima, numa pureza ardente cujo início era uma imperceptível falsidade. Sabia ainda fechar os olhos e cerrar-se numa força bruta. Entreabria então as pálpebras com delicadeza como deixando essa força escoar-se lentamente – e enxergava as coisas sob uma certa luz de crepúsculo dourado, flutuando num fulgor trêmulo, clareadas e finas; o ar entre elas era tenso e frio, os ruídos se aguçavam em agulhas velozes. Cansada, de súbito abria os olhos inteiros, deixava a força em liberdade – num estrondo mudo as coisas secavam cinzentas, duras e calmas, o mundo afinal.” (Clarice Lispector – O Lustre)

Au revoir! ;)